“Fazer ciência sem Matemática é impossível”
4 de Abril de 2010 por Pedro Crisóstomo
A Matemática em Portugal não está assim tão mal como vem nos jornais. O Oriente é bom, é bom, mas isso de estarem sempre a repetir não passa de ideia feita. Por cá, a última década é a melhor desde há muito em investigação científica. Mas falta investir na formação dos professores. Mesmo a docência na UC não tem sido recompensada. Em poucas linhas fica feito o retrato do ensino da Matemática e das ciências sob o olhar de Jaime Carvalho e Silva – desde Janeiro secretário-geral da Comissão Internacional para a Instrução da Matemática. Nasceu em Coimbra há 64 anos, entrou em Matemática em pleno Luto Académico, doutorou-se em Paris, deu aulas nos Estados Unidos, ganhou prémios nacionais e escreveu livros. É professor no Departamento de Matemática e, em 2003, coordenou os programas para o ensino secundário. Para falar do ensino da disciplina dá a volta ao mundo e gosta de apontar o exemplo da “organizada” sociedade americana. O homem que é o mais velho de cinco irmãos, todos com doutoramento concluído, e que colecciona recortes de jornais com títulos sobre Matemática diz que ainda espera ver a disciplina reforçada nas escolas. Vamos à conversa, que ninguém vive sem os números
Os últimos estudos dos níveis de aprendizagem da Matemática entre os países da OCDE revelam que os alunos portugueses com 15 anos não sabem usar a Matemática para tarefas quotidianas ao nível de alunos de outros países europeus. Portugal tem um problema crónico com a aprendizagem da Matemática?
Não, não tem. Primeiro, o que aparece aí no relatório da OCDE é uma parte: os estudantes portugueses não sabem fazer umas coisas, sabem fazer outras. Mas o que se dá impressão é que há realmente um problema congénito, eterno. Primeiro, é preciso ver que em termos de Ciência e Tecnologia, no tempo dos descobrimentos, estivemos no topo. Agora, a nossa educação não é brilhante. Por que é que se insiste tanto na tecla da Matemática? Porque, nos estudos internacionais, a Matemática, a língua nacional – a Língua Portuguesa – e as ciências estão todas ao mesmo nível: fraquito, fraquito. Somos capazes de montar uma estrutura muito boa. Quando pensamos no conjunto do país – e nós temos universidades de bom nível, não são universidades de topo, mas obviamente Lisboa, Porto e Coimbra sobretudo já têm um bom nível, mas Aveiro e Braga mexem-se muito bem [também]… Agora, temos de pensar no conjunto do território, e estes estudos internacionais são feitos com todas as pessoas, porque se uma pessoa quer ter uma media estatística razoável do futuro de um país tem de contar 100 por cento das pessoas.
Os estudos contam um país a várias velocidades.
Na média entra tudo. Podemos ter 10 por cento de excelentes e 90 por cento de medíocres: a média dá o quê? Medíocre. Os 10 por cento de excelentes não salvam isso, nem se salvam a eles próprios, porque não têm país com quem interagir.
Como secretário-geral da Comissão Internacional para a Instrução da Matemática, qual é a sua percepção da forma como somos olhados pelos outros países no que toca ao ensino da disciplina?
Normalmente. As pessoas que estão mais dentro, que conhecem mais a realidade internacional, sabem que em todos os países há dificuldades. Nos países de topo há dificuldades. No Japão, fizeram há uns anos uma reforma e disseram que os alunos estudavam demasiada Matemática. No ensino das Ciências, tinham nove horas por semana; no das Letras, cinco. Eles são bons – mantenha isso na ideia… são bons a Matemática… – mas não precisavam de tanto tempo. A ideia que temos dos orientais é que são muito bons a repetir e a copiar: mentira. São ideias feitas. No Japão, na China, na Formosa, o aluno é chamado a intervir pelo menos uma duas vezes na aula. Os professores no Oriente falam muito menos.
Em Portugal, faltaram professores de Matemática durante muitos anos. Começámos a recrutar às cegas. Depois, passou a haver excesso, mas não fizeram bem as contas e já estão a faltar professores. Neste momento, são muito poucos os que vão sair para a carreira este ano. Portanto, se vão faltar professores e não há professores qualificados, quem é que vai dar aulas? Professores não qualificados. Um aluno tem um percurso de 9 ou 12 anos de Matemática; se há um ou dois anos de quebra, o [ano] que vem a seguir já é um desastre [para recuperar a aprendizagem].
Uma das suas críticas é, aliás, para além desta débil à formação inicial dos professores, a fraca formação contínua…
Ora bem, se os professores são recrutados e, depois, tendo deficiências na sua formação, existe um trabalho intenso e contínuo, e se os professores quiserem – tem de se querer ser bom professor… – é possível colmatar muitas lacunas. Neste momento, só temos formação contínua para o ensino básico e secundário. Um professor tem 30 anos de carreira, os alunos que tinha no início e os que tem no fim são completamente diferentes. Há pessoas que acham: “a ciência é esta, os alunos que se acomodem”. Imensos cursos diferentes são ensinados por esse mundo inteiro – não há “a ciência”. E, no fundo, estamos aqui para ensinar o maior número possível de pessoas. Se vamos começar a afastar aqueles que nos dão dificuldades e só ficamos com os bons, podemos perguntar: “e os outros?”.
Vê uma falta de ligação entre a universidade e as escolas para que haja a formação contínua de que me está a falar?
Há, há. Repare: deve ter visto nas notícias que só nestes últimos 15 dias é que foi assinado o primeiro protocolo formal entre a Universidade de Coimbra (UC) e centros de formação de professores. Ora, estes centros já existem há uns 20 anos… Os professores universitários são os primeiros a saber: o centro da sabedoria é uma das missões da universidade, alargar o saber. Devia haver, como agora, uma preocupação de interagir com os níveis de ensino anteriores: primeiro, porque a qualidade do que vem antes da universidade é a qualidade do que chega à universidade (a geração espontânea não produz nada); depois, onde é que os professores do ensino básico e secundário vão buscar a sua actualização? É obrigação dos professores do ensino superior, porque eles é que investigam, é que comparam e é que podem testemunhar coisas e dar exemplos do que pode ser trabalhado. Mas há uma terceira condição: não há um professor que se possa deixar adormecer.
Ser professor é não se limitar à sala de aula e ao que trazem os manuais escolares para ensinar aos alunos.
Um professor, para ser um bom tem de estar sempre a pensar coisas novas e a repensar… mas “eu faço isto assim: será que eles [alunos] entendem mesmo?”.
A iniciativa deve partir tanto do Ministério da Educação como das próprias universidades?
A primeira coisa que tem de se fazer é formar mais professores, para escolher aqueles que vão sair. Se tivermos o dobro de candidatos em relação às vagas, pode ser que consigamos arranjar um critério em que, com grande probabilidade, os melhores estarão todos no lote que escolhermos. Desempregos em Matemática não há – há centros de explicação que passam por todo o lado, há pessoas que são contratadas por museus de ciência, exploratórios, podem concorrer a bolsa de investigação para melhorar o currículo. Aquilo que tem existido é um pouco a pressão sindical de dizer: “30 mil desempregados, eles têm de ser contratados, são precisos nas escolas”. Não estou a dizer que não são precisos. Mas é preciso [ver] desses 30 mil desempregados quantos de Matemática há.
No próprio seio da universidade, há um maior incentivo para que os alunos sigam mais para a investigação do que para a via ensino?
Não há nenhuma pressão nesse sentido, como nunca houve. É óbvio que uma pessoa, quando ouve mais propaganda dos feitos da universidade, é natural que se sinta também atraída por aquilo: descobertas, novos métodos para fazer isto e acoloutro.
A propósito deste apelo à investigação, o professor escreveu há uns anos: “o clima científico de uma instituição ou de uma época pode medir-se com grande segurança pela quantidade, abrangência e qualidade das publicações que nos deixou”. Como olha para a actividade científica da UC nesta primeira década?
Relativamente a décadas anteriores, é a melhor desde há muito tempo. É difícil comparar depois com outras épocas, porque as condições eram diferentes, nomeadamente o facto de se poder ir estudar para o estrangeiro. Para o programa de doutoramento de Matemática feito conjuntamente por Coimbra e Porto foram admitidos, salvo erro, 20 [doutorandos], dos quais só três são portugueses. Vejo que actualmente existe muito mais produção, muito mais portugueses a aparecerem como conferencistas em conferências internacionais do que quando entrei. Desde 76 para cá, a evolução tem sido tremenda.
Tradicionalmente em Portugal, as pessoas estão agarradas às suas áreas. Do ponto de vista da universidade, se o grande cientista não transmite a sua ciência, os alunos ficarão ignorantes. A docência na Universidade de Coimbra não tem sido recompensada. Repare que existem inúmeros prémios de investigação; existe o grande Prémio da Universidade de Coimbra; mas a UC não tem nenhum prémio para professores. E, no entanto, tem sido aquela coisa que, mal ou bem, há 700 e tal anos faz. Por que é que na universidade há tão bons e tão maus professores, e a universidade é a mesma? É um tema interessante. De quem é a responsabilidade de isso que está a acontecer? É do reitor ou dos conselhos científicos? O reitor é um manda tudo…
A avaliação interina dos professores é uma questão difícil.
A avaliação gera sempre polémica. Na UC, estamos habituados um pouco a viver no deixa andar. Agora, a maior parte dos professores com quem tenho contactado são professores conscienciosos, independentemente de terem de fazer relatórios ou de serem avaliados.
Desde o ano passado, passou a vigorar o Sistema de Gestão da Qualidade Pedagógica, em que os alunos podem avaliar os professores. É noutro sentido que fala na avaliação da docência?
A avaliação pelos alunos é uma componente. Só que não me parece que esteja a funcionar muito bem e que as questões estejam muito graduadas para o fim em vista. A avaliação dos docentes inclui necessariamente a avaliação da parte docente, a opinião dos alunos, o currículo científico, mas a parte do ensino, normalmente, é deixada cair no tinteiro.
O professor escreveu, num artigo, há 5 anos, que “os responsáveis caem muitas vezes na tentação de diminuir o lugar da Matemática nos currículos”. A ministra da Educação anunciou que o terceiro ciclo vai, de novo, ser reformado. É hora de reforçar a Matemática?
Eu acho que sim. Deve haver mais horas para a Matemática – mais uma hora por semana para a disciplina – mas tem que haver uma organização interna da escola com mais horas de apoio para as dificuldades dos alunos. Eu ouço, às vezes, argumentos aterrorizadores: “ai, coitadinhas da crianças, deixá-las ser felizes, por que é que estão a traumatizá-las com a Matemática?”. Se as pessoas têm a priori esse sentimento, é um bocado difícil avançar. Curiosamente, o que me leva a não estar muito optimista é o facto de a discussão ser pouca em Portugal e de o governo ter anunciado um aumento da carga horária da Matemática no segundo e terceiro ciclos e nunca ter sido concretizado. Há disciplinas básicas para a formação e as outras apoiam-se nessas, que são claramente a Matemática, a língua materna e a língua estrangeira. Quando a base não funciona, vamos construir o quê?
A matemática ainda é a porta e a chave para as ciências, como disse Roger Bacon [filósofo inglês do século XIII]?
Diria que não, diria que nunca foi. A Matemática é uma ferramenta indispensável, mas não a única. Nem para um matemático a Matemática aparece sozinha; a História mostra que muitos problemas que se tornaram fundamentais na Matemática nasceram fora dela, problemas concretos que alguém resolveu pôr por deleite ou problemas reais, como quando Napoleão invadiu o Egipto levou a academia das ciências atrás e disse: “esses são os problemas que agora vocês têm de resolver aqui”. A própria definição de ciência é uma coisa complicada. Às vezes, pensa-se que se pode fazer ciência sem Matemática, e isso é impossível. Agora, não se pode fazer ciência só com Matemática.
E de que massa é feito um bom matemático?
A massa não tem assim muitos ingredientes… Gosto pela área, trabalho, muito trabalho e persistência, porque os resultados na investigação não vêm necessariamente quando queremos. Há problemas que têm resistido às investidas dos matemáticos 50, 100, 200 anos.
Professor, historiador e investigador científico, coordenador do ensino da Matemática. Há algum papel em que se sinta melhor?
É um bocado como os cientistas antigos… Não eram nem matemáticos, nem físicos, nem isto, nem aquilo… Vou fazendo a intervenção conforme as condições que há (se não for possível ter acesso a livros antigos de uma maneira ou de outra, vou estudar o quê de História da Matemática?); depende do estímulo em geral e, para já, tenho achado que a Universidade de Coimbra é suficientemente estimulante, embora gostasse que fosse mais. Um cientista nunca vai saber tudo, mas quer saber mais numa direcção ou noutra, conforme o gosto pessoal.
